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Uma lógica portuguesa, com certeza

22-01-2008 12:49

Aldisio Filgueiras

Os portugueses criaram Manaus à margem esquerda do rio Negro por um erro de cálculo, uma ilusão de ótica ou sabotagem náutica - uma estrela cadente cegou o navegante - , melhor dizendo: eles pensaram que era a margem direita. Estavam subindo o rio, claro.

Esse equívoco jamais corrigido ainda hoje provoca ondas sistêmicas cujo epicentro está na Idade Média, na placa em que o Iluminismo (ou Esclarecimento) se distancia da Idade das Trevas e joga o mundo ocidental num cataclisma de racionalismo da mais pura irracionalidade - o Iluminismo muda a tecnologia da tortura, enquanto mantém a pré-história e a ignorância do mundo. O jeans substitui o trapo franciscano, mas o horror fascista é o mesmo. É por isso que se diz: apressado come cru. Um pouco menos de preconceito e Portugal teria se integrado à União Européia há muito mais tempo.

Tudo o que os portugueses queriam, além de aumentar o tamanho do seu quintal nacional, era um cadinho em que pudessem preservar a intolerância da Inquisição e da Coroa feudal, com o apoio pré-capitalista dos jesuítas, em qualquer fim-de-mundo das terras brasílicas. Deu no que deu. O descuido náutico português de ontem faz com que os pilotos do trânsito de hoje acenem com a direita quando entram à esquerda e vice-versa. Promove, no meio de um rio tão grande quanto imenso, trombadas entre canoas, barcos-recreio, navios de pequeno e grande calado e até avião é atraído para essa confusão, além de desorientar o calendário de piracemas.

Reflete também na política onde o fascista de ontem é o comunista de hoje e o neoliberal de amanhã e o camelô de todos os tempos se transforma no pastor de almas, depois de três aulas sobre vendas e como iludir consumidores, desesperados e sem dinheiro para consumir. Com certeza, incentiva Manaus a fazer uma coisa quando diz que faria outra. As escolas públicas e privadas exercitam as crianças de Manaus a distinguir esquerda e direita, durante as manifestações cívicas do e do 7 de Setembro. Setembro, no entanto, é mês de sol muito quente, e o cérebro dessas crianças continua confuso até a velhice, que elas pensam ser a melhor idade. Aquela estrela cadente desnorteou o norte da cidade que seria Manaus, quando despencava numa elipse em direção ao sul.

Mas, como diziam os antigos, que também eram portugueses, nada acontece por acaso, querendo dizer, e já dizendo, que existe, sim, uma teoria do caos, como só o futuro comprovaria. Mal sabiam que a natureza, inclusive a humana, não tem lógica nem sentido. É tudo ao Deus-dará. Manaus nasceu como nascem e nasceram todas as cidades desde a Mesopotâmia: pequenininhas, depois pequenas, depois médias e vão crescendo, crescendo até se verem, assim, completamente cercadas de favelas por todos os lados, como dizem as canções d'amor que se ouvem nas emissoras de rádio de ondas curtas, médias, tropicais e freqüência modulada.

Os portugueses não foram expulsos de Manaus. Eles desistiram. E se renderam a essa dura realidade, certos de que nada acontece por acaso. Descendo o rio, Manaus está à margem esquerda, limitada ao leste pelo Pólo Industrial que ameaça todos os dias, como um mantra do mal, a se mudar com todos os seus parafusos para qualquer lugar mais barato do planeta (como se sabe, Manaus tem um nível de vida dos mais caros do mundo, mesmo em moeda nacional). Atrás desse leste tem os rios Negro e Amazonas.

Ao norte, Manaus impõe sua influência a Rio Preto da Eva e Itacoatiara e a todos os sítios que se (o)puserem ao seu caminho. À direita, a Vila Militar, protegida pelo Curso Intensivo de Guerra na Selva (Cigs), mas sitiada por São Jorge, Compensa, Vila da Prata (mais atrás, o rio Negro). De forma que Manaus não tem mais para onde correr e está de olhos imobiliários fixos na margem direita do rio. Por isso a teoria da ponte sobre o rio, que se explica assim: já depredamos o que tínhamos que depredar deste lado do rio. Agora é a vez de estragarmos a margem direita.

E mais de 300 anos depois de fundada por um erro de cálculo ou cegueira luminosa de uma estrela cadente, Manaus se assentará à margem direita do rio Negro, como queriam os portugueses. Eu já comprei o meu lote. Quem chegar por último é filho do padre.

Aldisio Filgueiras é jornalista, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e da Plural da Amazônia - Cooperativa de Comunicação


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